Ganhei um livro de presente do meu amigo.
Não há coisa que eu mais goste que ler.
Ler é uma compulsão, se começo, é difícil parar, só se o livro me irrita.
Se isso acontece, não falo mal dele, pode ser que outro goste, apenas paro, tenho pena do livro. As vezes torno a ler, mas por pena de mim, freio.
Mas este livro, é diferente. Não o quero rápido como os outros, também não quero abandoná-lo.
Prefiro guardar, me dar as letras em doses homeopáticas.
Lendo assim o livro me fara sentir bem em diversas partes de diferentes dias.
Para não acabar, para demorar, para gravar.
É como se fosse um chocolate raro, que come-se bem devagar, não a caixa toda, mas um a cada dia. E depois, nada de beber água em cima, o gosto vai todo embora.
As pessoas são como livros, sendo estes bem melhores, claro. Vou explicar.
Não podemos falar de alguém sem ao menos lermos seu resumo, mas só lendo o resumo fica difícil conhecer, então começamos o primeiro capítulo, mas a diferença está exatamente aí.
Se não gostamos do início do livro, podemos fechá-lo e guardar.
As pessoas não, as pessoas não só são conhecidas, ou melhor, lidas, mas também lêem.
Se a dedicatória de uma pessoa diz - " Ao verme que primeiro roeu as carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas memórias postumas" * - Talvez jamais queiramos conhece-la, ela parece feia e sem nenhum valor. Mas se há esforço, acaba-se vendo quanta coisa boa aqueles capítulos nos reservam, então, acabamos com ciúme de emprestar a mais alguém aquela preciosidade.
Há capas bonitas que nos reservam algo sem sentido, então, o melhor é fazer o mesmo que aos livros chatos, fechar e não tentar mais. Não falar mal já é um pouco mais difícil, mas, como o coração é cristão, faz-se o possível.
Mas o cuidado é o mesmo, tanto com as pessoas, como com os livros.
Pessoas são livros a serem conhecidos.
* Assis, Machado - Memórias Póstumas de Brás cubas

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