quarta-feira, 18 de julho de 2007



- Amanhã vamos à praia!!


Era dia de festa quando ele nos dizia isso, tudo já estava pronto na mesma noite...

Tudo para uma criança significa: Baldinho, pá, vasilhinhas em vários formatos (o meu preferido era o de estrelinha do mar), bola, boneca e milhares de coisas que vão ser carregadas pelos adultos (adultos adoram carregar essas coisas!!).

Mas de manhã... dia perdido... todos os planos de rolar na areia frustrados por uma imensa nuvem cinza que pairava sobre as nossas cabeças... céu fechado e chuva prestes a cair. Carinhas de desconsolo, sem alento para as pobres perninhas frenéticas, doidas por uma corrida "até ali ó!" e voltar correndo na praia, lugar enormezão para elas!

Mas aí, ele pronunciava as palavras mágicas para as duas garotinhas desconsoladas:


- Vamos, vou dar o sol para vocês!! Ali na frente tem sol!!


Então, mesmo sem enxergar a mínima possibilidade de sol, apanhavamos o que cabia em nossas mãos pequenininhas, eu corria para o braço dele, ele me colocava no carro e iamos ao encontro do sol. Depois de algum tempo, estavamos lá, naquele canto de Deus! Com um monte de ondas, piscininhas dos sonhos cavadas por mãos, castelinhos para princesas feitos de areinha e ele, o sol bem grande lá em cima. Olhava para o meu pai e tinha a certeza de que ele era mágico, ele me dava o sol mesmo em dias nublados, como ele fazia aquilo? Por isso acho que amo tanto o mar. Então, em dias tristes, lembro do sol que sempre aparece, basta corrermos atrás e se não conseguimos enxergar possibilidades, Alguém nos dará o sol...


.Saudades pai.



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sexta-feira, 6 de julho de 2007

Livros

Ganhei um livro de presente do meu amigo.
Não há coisa que eu mais goste que ler.
Ler é uma compulsão, se começo, é difícil parar, só se o livro me irrita.
Se isso acontece, não falo mal dele, pode ser que outro goste, apenas paro, tenho pena do livro. As vezes torno a ler, mas por pena de mim, freio.
Mas este livro, é diferente. Não o quero rápido como os outros, também não quero abandoná-lo.
Prefiro guardar, me dar as letras em doses homeopáticas.
Lendo assim o livro me fara sentir bem em diversas partes de diferentes dias.
Para não acabar, para demorar, para gravar.
É como se fosse um chocolate raro, que come-se bem devagar, não a caixa toda, mas um a cada dia. E depois, nada de beber água em cima, o gosto vai todo embora.
As pessoas são como livros, sendo estes bem melhores, claro. Vou explicar.
Não podemos falar de alguém sem ao menos lermos seu resumo, mas só lendo o resumo fica difícil conhecer, então começamos o primeiro capítulo, mas a diferença está exatamente aí.
Se não gostamos do início do livro, podemos fechá-lo e guardar.
As pessoas não, as pessoas não só são conhecidas, ou melhor, lidas, mas também lêem.
Se a dedicatória de uma pessoa diz - " Ao verme que primeiro roeu as carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas memórias postumas" * - Talvez jamais queiramos conhece-la, ela parece feia e sem nenhum valor. Mas se há esforço, acaba-se vendo quanta coisa boa aqueles capítulos nos reservam, então, acabamos com ciúme de emprestar a mais alguém aquela preciosidade.
Há capas bonitas que nos reservam algo sem sentido, então, o melhor é fazer o mesmo que aos livros chatos, fechar e não tentar mais. Não falar mal já é um pouco mais difícil, mas, como o coração é cristão, faz-se o possível.
Mas o cuidado é o mesmo, tanto com as pessoas, como com os livros.
Pessoas são livros a serem conhecidos.
* Assis, Machado - Memórias Póstumas de Brás cubas



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terça-feira, 3 de julho de 2007

Almas


Mãos na cabeça,Pele e alma mortas, secas, cansadas de sol.
O que fazer, para onde ir?
Não sabe mais.
Dois rebentos, quase linhas, riscadas na imensidão da cidade, dos sinais.
Continuarão sendo pequenos riscos de nada quando, já não forem pequenos?
Pedir... Não, ela já não tem mais força.
As pequenas linhas dançam ao som de músicas distantes.
Suas vidas não são, definitivamente, iguais aquelas músicas.
Mesmo assim conseguem rir.
Sorrir na face cruenta da vida.
Brincam, não precisam saber do que os aguarda no futuro, são ainda pequenos.
Deus o sabe.
E o amor?
Não é possível enxergá-lo.
Assim são as ruas do Recife.



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